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Mundo está à beira de cinco pontos irreversíveis de desastre climático

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Para cientistas, manter as condições de vida na Terra e permitir a continuidade de sociedades estáveis no mundo passa por fazer tudo o que for possível para evitar cruzar esses pontos de inflexão.

A crise climática levou o mundo à beira de vários pontos de inflexão “desastrosos”, de acordo com um grande estudo, que revela: cinco áreas potencialmente irreversíveis já podem ter sido ultrapassados ​​devido ao aquecimento global de 1,1°C causado pela humanidade até o momento.

Isso inclui o colapso da calota de gelo da Groenlândia, que acabou produzindo uma enorme elevação do nível do mar, o colapso de uma corrente importante no Atlântico Norte, interrompendo a chuva da qual bilhões de pessoas dependem para se alimentar, e um derretimento abrupto do permafrost rico em carbono.

Com 1,5°C de aquecimento, o aumento mínimo agora esperado, quatro dos cinco pontos de inflexão passam de “possível” para “provável”, conforme a análise. Também a 1,5°C, mais cinco pontos de inflexão se tornam possíveis, incluindo mudanças nas vastas florestas do norte e a perda de quase todas as geleiras das montanhas, informa o Guardian.

No total, os pesquisadores encontraram evidências de 16 pontos de inflexão, sendo que 6 deles precisariam de um aquecimento global de pelo menos 2°C para serem acionados, de acordo com as estimativas dos cientistas. Os pontos de inflexão teriam efeito em escalas de tempo variando de alguns anos a séculos.

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“A Terra pode ter deixado um estado climático ‘seguro’ além de 1ºC do aquecimento global”, concluíram os pesquisadores. Passar por um ponto de inflexão geralmente ajuda a desencadear outros, produzindo efeito cascata. Mas isso ainda está sendo estudado e não foi incluído, o que significa que a análise pode apresentar o mínimo de perigo.

Brasil tem papel importante para sobrevivência do planeta

O Brasil tem participação nesse risco: pesquisas recentes mostraram sinais de desestabilização na Floresta Amazônica, cuja perda teria implicações “profundas” para o clima e a biodiversidade globais, bem como para o manto de gelo da Groenlândia e a Corrente do Golfo que cientistas chamam de Circulação Meridional do Atlântico (Amoc, na sigla em inglês).

Um relatório recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) apontou que o risco de desencadear pontos de inflexão climáticos se torna alto com 2°C de aquecimento global.

A análise, publicada na revista Science, avaliou mais de 200 estudos anteriores sobre pontos de inflexão, observações climáticas e estudos de modelagem. Um ponto de inflexão é quando um limite de temperatura é ultrapassado, levando a uma mudança irrefreável em um sistema climático, mesmo que o aquecimento global termine.

Os nove pontos de inflexão globais identificados são: o colapso da Groenlândia, da Antártida Ocidental e duas partes das camadas de gelo da Antártida Oriental, o colapso parcial e total da Amoc, a extinção da Amazônia, o colapso do permafrost e a perda de gelo marinho no inverno no Ártico.

Derretimento de gelo na Groenlândia

“Atualmente, há evidências com base em observações de que a massa de gelo da Groenlândia está encolhendo a um ritmo acelerado devido a uma combinação do derretimento da superfície e o desprendimento acelerado de icebergs”, explica à BBC News Mundo Tim Lenton, professor de mudança climática e sistemas globais na Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Lenton também destacou um estudo deste ano, segundo o qual parte do gelo na Groenlândia está mostrando “sinais iniciais consistentes com a aproximação de um ponto de não retorno” pelo seguinte processo de retroalimentação: o derretimento reduz a altura da massa de gelo, expondo-a ao ar mais quente em altitudes mais baixas, o que por sua vez causa maior perda de gelo

Derretimento do gelo na Antártida Ocidental

“Também há evidências observacionais consistentes com o fato de que parte da plataforma de gelo da Antártida Ocidental — a Geleira da Ilha Pine e a Geleira Thwaites, na região do Mar de Amundsen — pode ter passado potencialmente de um ponto de não retorno no que diz respeito ao retrocesso irreversível da linha de apoio (ponto em que uma massa de gelo ao ser introduzida no mar se separa da rocha e começa a flutuar no oceano)”.

“Os modelos indicam um recuo irreversível com os níveis atuais de aquecimento do oceano e sugerem que a perda desta parte do gelo na Antártida Ocidental pode desestabilizar grande parte do resto.”

AMOC, o sistema de correntes do Atlântico

Um elemento-chave do sistema terrestre que pode interligar mudanças a milhares de quilômetros de distância é a Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), mais conhecida como corrente termohalina atlântica.

“A AMOC é um sistema de correntes no Oceano Atlântico que transporta águas quentes para o norte e águas frias para o sul”, diz a oceanógrafa física mexicana Alejandra Sánchez-Franks à BBC News Mundo.

A cientista trabalha no programa RAPID MOC do Centro Nacional de Oceanografia do Reino Unido, que monitora esse sistema de correntes.

“Em geral, a corrente flui na superfície, que tem aproximadamente 1000 metros de espessura, e move essas águas quentes e rasas para o norte onde se tornam águas frias e profundas que depois são deslocadas de volta para o sul.”

A pesquisadora explicou o que significa para a AMOC ser uma corrente “termohalina” (expressão derivada do grego — “termo” se refere à temperatura, e “halo” ao sal).

“Isso quer dizer que as características mais importantes da corrente são a temperatura e a salinidade, que são as propriedades que determinam a densidade de uma massa oceânica.”

Sánchez-Franks observa que as massas oceânicas de água quente que se deslocam na superfície do mar dos trópicos até as regiões polares vão esfriando durante seu deslocamento em direção ao norte.

“O resfriameno dessas águas superficiais faz com que elas se tornem mais densas e afundem. A massa oceânica, agora mais fria e densa, começa seu deslocamento para o sul, nas profundezas do oceano. Isso é o overturning ou capotamento.”

O que preocupa os cientistas é que, de acordo com alguns estudos, todo esse sistema de correntes atlânticas desacelerou em 15% desde meados do século 20.

Mudanças na Amazônia

“Nossos cálculos mostram que se entre 20% e 25% da Floresta Amazônica desaparecer, a duração da estação de seca e a temperatura vão aumentar e isso pode fazer com que a floresta tropical dê origem a uma vegetação diferente, de savana.”

É o que afirmou à BBC News Mundo o cientista brasileiro Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP e especialista em Amazônia, que trabalhou por 35 anos no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Esta possível mudança na vegetação se deve a um fator crucial na Floresta Amazônica: a selva gera parte de sua própria chuva.

Quando a chuva cai, essa água é capturada pelas raízes das árvores, que a liberam novamente por meio da transpiração para a atmosfera, onde formam nuvens e chuvas novamente.

Devido a essa reciclagem de água, quando uma parte da floresta tropical é eliminada, chove menos, o que prolonga a estação de seca.

“A maior preocupação vem de observações do que vem acontecendo no clima e na floresta nas últimas décadas”, diz Nobre.

“Em grande parte do sul da Amazônia, a estação de seca é de três a quatro semanas maior em comparação com a década de 1980 e também cerca de 3 °C mais quente.”

“Nessa grande área de mais de 2 milhões de km2, a Floresta Amazônica está perdendo sua capacidade de reciclar água.”

“Há também áreas bastante desmatadas e degradadas no sul da Amazônia, onde as florestas remanescentes estão perdendo a capacidade de remover o dióxido de carbono da atmosfera — um papel importantíssimo que as florestas globais desempenham ao retirar até 30% do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas — e estão passando a ser fontes de emissão.”

“Nessa região da Amazônia, a taxa de mortalidade de árvores típicas do clima úmido amazônico está aumentando, fator que anuncia que não estamos muito longe de um tipping point“.

Possíveis interconexões a milhares de km

“O sistema terrestre está todo interligado: atmosfera, oceanos, continentes, vegetação, biodiversidade e ações humanas que interferem no equilíbrio planetário”, afirma Nobre.

Nesse sistema interconectado, um ponto de não retorno pode afetar outros.

Gráfico mostrando o mapa da América e da África e possíveis pontos de não retorno com suas possíveis interações
Por exemplo, “um rápido derretimento do gelo na Groenlândia vai liberar água doce, que é mais leve (do que a água com salinidade mais alta) e não afunda rapidamente no Atlântico Norte, onde se origina a circulação termohalina ou AMOC.”
Isso tornaria a AMOC mais lenta, acrescenta Nobre.
“Se a AMOC enfraquecer de maneira geral, como de fato está acontecendo, as correntes oceânicas superficiais que levam águas quentes para o norte do Atlântico levarão menos calor para fora dos trópicos, então o Atlântico Tropical Norte ficará mais quente.”
Isso, por sua vez, resulta em dois efeitos climáticos extremos: “águas mais quentes nessa região geram furacões mais fortes, exatamente o que temos visto na última década. E também provoca um movimento ascendente do ar sobre as águas mais quentes com um movimento compensatório descendente sobre partes da Amazônia (a chamada circulação de Hadley). Este ar descendente provoca secas, algumas extremas como as de 2005 e 2010”, observa Nobre.
Tim Lenton acrescenta ainda que o enfraquecimento da AMOC pode interferir nas monções (mudanças sazonais que causam fortes chuvas) na Índia, causar secas no Sahel (norte da África) e transportar menos calor para o norte e deixar mais quente o Oceano Antártico, ameaçando as plataformas de gelo na Antártida.

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