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Liga da Justiça de Zack Snyder é exatamente o que prometia ser; para o bem e para o mal.

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Zack Snyder finalmente lança sua Liga da Justiça intocada pelo estúdio, atendendo aos pedidos de uma legião de fãs

Por Marcelo Silva

ATENÇÃO: Há menções breves de cenas que não estão no corte do cinema, mas creio que nada que possa efetivamente ser considerado um spoiler. Fica o aviso de qualquer maneira, caso você se preocupe com isso. 

Goste ou não de Zack Snyder ou de filmes de super-heróis, a história da produção de “Liga da Justiça” é um dos maiores absurdos promovidos por um estúdio em Hollywood nos últimos anos.  A demissão sendo tramada por debaixo dos panos enquanto outro diretor (Joss Whedon, de “Vingadores”) já assumia supostamente para “ajudar nas refilmagens”, o estúdio se recusando a adiar o lançamento mesmo com todos os problemas (para garantir o bônus de final de ano dos executivos… não é piada), lábios digitais, vilões horrendos e o maior grupo de super heróis dos quadrinhos sendo submetido a um filme sem alma, sem impacto e sem qualquer relevância. É provavelmente um dos blockbusters mais sem graça da década passada.

Os pedidos para a versão “intocada” do filme vem desde a estreia do corte de Whedon e começaram como uma piada, que lentamente foi ganhando força com ajuda do elenco e membros da produção, até que em fevereiro de 2020, depois de uma campanha massiva (e maçante… e um pouco tóxica as vezes), o “Snyder Cut” finalmente foi oficializado.

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E agora, sob o nome de “Liga da Justiça de Zack Snyder” (que eu seguirei chamando de “Snyder Cut” no resto do texto por questões práticas), ele finalmente chegou no HBO Max nos EUA e em diversas plataformas para compra e aluguel no Brasil. A história do filme é basicamente a mesma que vimos em 2017: após a morte de Superman, Bruce Wayne (Ben Affleck) decide juntar uma equipe de heróis para enfrentar uma ameaça que ele acredita ser iminente, enquanto o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) começa a busca pelas três caixas maternas que trarão seu mestre Darkseid (Ray Porter) para conquistar a Terra. 

A grande diferença dessa nova versão porém, está em como essa história é apresentada. Se na versão do cinema vimos personagens sem substância tentando impedir um vilão que não sabemos de onde veio de conseguir três caixas que não entendemos o que são, aqui todos esses elementos são devidamente apresentados, contextualizados e desenvolvidos.

Quem mais se beneficia do “Snyder Cut” são os personagens que não tem filmes para si até agora. O Ciborgue de Ray Fisher, que foi relegado a figurante de luxo em 2017, brilha aqui, com toda sua história de origem, relações familiares e dramas pessoais sendo explorados nas duas horas iniciais, tornando-o o personagem mais interessante do filme (e Fisher faz um excelente trabalho, o que explica sua revolta em relação a versão do cinema todos esses anos). Além dele, o Flash de Ezra Miller ganha mais espaço e apesar de continuar sendo apenas o alívio cômico do grupo, ganha um excelente papel no clímax – que culmina no que deve ser uma das melhores, mais criativas e mais… “quadrinísticas” cenas de todos os filmes do Universo Estendido da DC até agora. 

O Lobo da Estepe vira praticamente um personagem novo, com um design melhorado (o uniforme “dinâmico” é um belo acerto) e motivações bem definidas que o tornam um pouco mais ameaçador. Aqui, Snyder torna a busca pelas caixas maternas diretamente ligada a Darkseid – também era na versão do cinema, só esquecem de avisar o espectador – e a reinclusão do grande vilão do Universo DC é, junto com o arco do Ciborgue, o maior acerto do filme. O fato de intimidar até o antagonista da Liga dessa história faz com que a missão dele tenha muito mais em jogo. A corrida para impedi-lo de cumprir seu objetivo no clímax agora é realmente empolgante. 

Liga da Justiça de Zack Snyder é exatamente o que prometia ser; para o bem e para o mal.
Liga da Justiça de Zack Snyder – imagem divulgação

As sequências de ação inclusive se tornam um verdadeiro espetáculo nas mãos de Snyder, que está na sua melhor forma dirigindo cenas do tipo. Há dois grandes momentos de ação: a batalha no subterrâneo da Ilha Stryker e o final na cidade abandonada. Em ambos, o diretor trabalha bem a equipe e a espacialidade da cena, dando um momento para todos brilharem separados e juntos. Saem momentos constrangedores como o Flash caindo nos peitos de Mulher-Maravilha, entram a vibrante batalha entre ela e Lobo da Estepe e o velocista salvando cidadãos de escombros. 

Como ficou claro, o “Snyder Cut” tem sim, vários acertos, que inclusive é o que permitem que ao final de tudo, seja possível chegar a um saldo positivo para a produção. Porém, ainda é Zack Snyder dirigindo um filme do Universo DC e mesmo fazendo o exercício de desconsiderar a forma deturpada como ele retrata os personagens – Deuses violentos e/ou frios, sem código moral e que se veem acima do bem e do mal, sendo assim mais temidos do que admirados – ou sua já característica paleta de cores dessaturada – que tornam Darkseid e seus asseclas criados pela mente cheia de cores de Jack Kirby em massas cinzentas e desinteressantes de CGI – ainda há problemas difíceis de ignorar nessas quatro horas. 

O maior deles é exatamente esse. Quando detalhes do filme começaram a sair, o mais alardeado (pelo próprio Snyder até) era de que ele teria quatro horas de duração. A princípio, por estar estreando no streaming e com a intenção de ser a visão pura de um diretor, fazia sentido ele não cortar qualquer cena que normalmente seria cortada para o cinema. E continuaria assim se o produto final tivesse quatro horas realmente intensas e bem aproveitadas. 

Mas não demora muito para percebermos que nada justifica essa duração surreal. Não fosse pelo excelente arco do Ciborgue já mencionado, as duas primeiras horas de filme seriam quase impossíveis de passar. Sobram coisas como o slow motion (vício de linguagem preferido de Snyder), usado aqui a nível de virar piada – a cena em que Flash salva Iris West de uma colisão dura TRÊS minutos só em câmera lenta.

Além disso, não faltam cenas intermináveis, outras que não levam a lugar nenhum nem acrescentam nada para os personagens ou a história e o mais difícil: vários momentos que vão além do repetitivo e parecem literalmente a mesma cena copiada duas vezes, como se Snyder tivesse esquecido que já tinha incluído elas no corte. 

No espaço de uma hora, o Lobo da Estepe tem duas cenas com as mesmas linhas de diálogo e até os mesmos ângulos de câmera (“As caixas maternas estão próximas, os parademônios estão sentindo sua presença”) e Lois transita entre cafés, policiais e memoriais sem qualquer evolução de personagem. Ah, e o que dizer do grito que anuncia a entrada da Mulher-Maravilha, tão repetido que já virou meme na internet? 

Também há algumas decisões narrativas que são no mínimo questionáveis. A reinclusão de Darkseid foi um grande acerto, mas escolher a mais avassaladora derrota sofrida pelo vilão como forma de apresentá-lo é estranho quando a intenção é torná-lo o ser mais perigoso do Universo DC nos cinemas. E na maior parte do tempo, o tom quase solene que Snyder assume pro filme beira ao cômico e fica especialmente evidente na forma que Aquaman (Jason Momoa) é retratado, com mulheres cantando “Song to the Siren” quando ele vai embora (na cena mais “versão do diretor” da história das versões dos diretores) ou Momoa caminhando em câmera lenta imponente pelo píer ao som de Nick Cave – cenas inclusive que começam do nada e vão para lugar nenhum no meio dessas quatro longas horas.

Mas dá até para relevar essas coisas quando se pensa em dois momentos que mais do que questionáveis, são tão ruins quanto o famigerado grito por Martha de “Batman v Superman” ou o sexo ao som de “Hallelujah” em “Watchmen”: um começa como uma das melhores e mais eficientes cenas que Snyder já dirigiu, um belíssimo diálogo entre Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (Amy Adams) sobre luto, em que vemos duas mulheres sofrendo pela perda da pessoa que mais amavam. Um momento verdadeiro e humano, algo raro nos filmes da DC de Snyder… que continua sendo raro já que todo significado da cena é neutralizado rapidamente por um easter egg estúpido e sem nenhuma utilidade para esse filme pelo menos. 

E claro… o epílogo. O pesadelo do Batman, uma das mais estranhas, deslocadas e desnecessárias cenas de “Batman v Superman” faz o seu glorioso retorno no “Snyder Cut” (está nos trailers, não é spoiler) e se o easter egg da cena de Martha e Lois estraga só aquele momento, o epílogo é tão equivocado em seu tom e lugar na história que quase derruba o filme todo. Jared Leto ressurge como Coringa – mas outra versão, mais acertada e que felizmente ignora a de “Esquadrão Suicida” – para um diálogo perturbador com Batman e segundo a segundo, a cena vai sugando toda a beleza da sequência final do filme que vem antes disso. Afinal de contas, parece demais para Snyder encerrar uma história da DC com uma nota positiva e de esperança. Não é como se toda a essência de seus personagens fosse basicamente sobre isso não é mesmo? 

Mesmo assim, o “Snyder Cut” é um bom filme. Talvez o melhor do diretor desde “300”. Está cheio de excessos e escolhas estranhas ou simplesmente ruins, mas entrega ação com super-heróis como poucos filmes recentes, desenvolve plenamente sua história e apresenta os personagens novos de forma muito eficiente, tem uma ameaça efetiva e principalmente, tem o tom épico que esse filme e esses personagens sempre mereceram. Talvez ele pareça muito melhor do que realmente é porque é inevitável compararmos com a versão de 2017, mas ainda é um filme competente de qualquer maneira. 

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Só que ainda não é a versão cinematográfica que a Liga da Justiça merece. Tudo é muito cinza, pesado e autoindulgente demais, é difícil enxergar uma unidade num grupo em que os membros tem níveis de química e carisma tão variados e mais do que isso, tudo envolvendo esse filme foi tão problemático que colocá-lo como a introdução da versão definitiva da equipe nos cinemas seria uma sacanagem. Tem também a duvidosa decisão de manter o aspect ratio em 1:33, que segundo Snyder era para “manter a sensação do IMAX” mas na prática só deixou o primeiro filme com os maiores heróis da Terra numa limitadora caixinha quadrada. 

Isso tudo só não chega a ser um problema porque no fim do dia essa é a Liga da Justiça de Zack Snyder, como o próprio nome oficial diz. Essa é a visão que ele tem para esse universo, independente do que eu pense do lugar do epílogo ou de como os personagens foram retratados. Dei play nessas quatro horas sabendo o que me esperava nesse sentido. Mas agora passou. 

 De forma bem sutil, o cineasta já começou a atiçar os fãs para pressionarem a Warner a restaurar sua visão da DC para os cinemas, trazendo-o de volta para dirigir as sequências que ficam em aberto ao final do filme. E apesar de simpatizar com Zack Snyder enquanto pessoa (o inferno pessoal que ele passou e a forma como foi tratado profissionalmente são coisas que não desejo a ninguém), eu realmente espero que a Warner siga em frente dessa vez. O “Snyder Cut” foi a reparação de uma sequência de decisões idiotas e maldosas, agora que foi tudo resolvido é hora de olhar para o futuro, que já está cheio de filmes com um direcionamento totalmente diferente e promissor. Aos fãs do diretor, eu sei que é difícil de acreditar, mas existe uma vida na DC além de Zack Snyder e pode ser uma vida muito boa, é só dar uma chance. 

No mais, fica só a esperança da união de um Superman que não viva atormentado em constantes crises de identidade, um Batman que sirva como o seu oposto perfeito sem nunca esquecer do seu lugar como herói e uma Mulher-Maravilha amante da paz que use a força como último recurso e não vaporize homens na frente de criancinhas, buscando mais heróis para formar a Liga da Justiça que realmente ficará canonizada no cinema. Quem sabe um dia…

Marcelo Silva, colunista de Cultura

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