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The Boys in the Band: Reflexões sobre o presente em uma janela para o passado

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Com elenco estelar, The boys in the Band, o novo filme da Netflix parece datado e assustadoramente atual na mesma medida.

Por Marcelo Silva

Quando estreou em Nova York em 1968, a peça teatral “The Boys in the Band” pegou os EUA de surpresa. Num mundo que marginalizava, oprimia e se recusava a aceitar a homossexualidade de milhares de pessoas, uma história inteiramente centrada em homens gays, suas vidas e intimidades, expostas sem julgamentos e censuras no palco chocou o público, mas foi um divisor de águas para a comunidade LGBT+.

Ainda que nunca ter alcançado a Broadway até seu revival 50 anos depois, a peça foi revolucionária, sendo pioneira nas suas temáticas e uma das fagulhas que inspiraram os movimentos civis para os LGBTs e os protestos de Stonewall que dominaram os EUA no ano seguinte. Em 1970, William Friedkin fez a primeira adaptação para o cinema, também pioneira e um marco pelos mesmos motivos que a peça.

Agora, tal qual aconteceu no teatro, o produtor Ryan Murphy (de “American Horror Story”, “The Politician”) resolveu marcar o aniversário de 50 anos do filme original com uma nova versão, dessa vez baseada na peça de 2018, também produzida por ele. O time é exatamente o mesmo da Broadway, desde o diretor Joe Mantello até o incrível elenco – todos publicamente gays, algo que chamou atenção na produção do remake – com nomes como Jim Parsons, Andrew Rannells, Matt Bomer e Zachary Quinto. E o resultado é uma experiência… inusitada.

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The boys in the Band
Imagem divulgação

O ponto de partida da história, que tal qual na versão original acontece em 1968, é um grupo de amigos abertamente gays se reunindo na casa de Michael (Parsons) para comemorar o aniversário de Harold (Quinto). As coisas saem do controle quando um antigo amigo hétero de Michael aparece de surpresa na festa, fazendo cada personagem confrontar os erros do passado, as hostilidades do presente e as incertezas do futuro.

Existe uma armadilha inevitável de toda adaptação do teatro para o cinema, que é o de tentar fugir da impressão do filme ser “teatro filmado”. Mantello bem tenta fundamentar “The Boys in the Band” como uma obra cinematográfica, inserindo flashbacks durante as confissões dos personagens e abrindo o filme com uma ótima montagem de cada um deles vivendo sua vida e se preparando para o encontro na casa de Michael. Porém a maior parte do filme se passa num único cenário, com a câmera sem muitas opções do que fazer. 

Com isso, como acontece com toda adaptação teatral, a força da obra fica no texto e nas atuações. E se beneficiando do fato do elenco ser o mesmo da Broadway – e portanto já terem refinado a química deles à perfeição após um ano de performances semanais – “The Boys in the Band” tem atuações magistrais, reforçadas por diálogos afiados. 

Apesar de serem uma verdadeira potência juntos, há alguns nomes específicos que tomam o filme pra si em determinados momentos: Zachary Quinto tem uma presença magnética em cena e sua atuação sozinha quase explica todo o mistério criado em torno de Harold e a imponência com a qual Mantello o filma quando ele aparece pela primeira vez – algo que o filme em si nunca explica. Brian Hutchison tem um desafio com Alan, o amigo de Michael e faz um trabalho brilhante, com sutilezas que o deixam numa ambiguidade quase angustiante. 

Quem rouba a cena porém, é mesmo Jim Parsons, monumental como Michael, o catalisador de todo o conflito que se desenrola entre os amigos. Hipnotizante, Parsons se entrega totalmente a personalidade atormentada e consequentemente tóxica do protagonista e é um verdadeiro presente ver o ator num papel tão complexo no audiovisual, tendo seu talento devidamente reconhecido depois de anos numa triste zona de conforto em “The Big Bang Theory”.

The boys in the Band
Imagem divulgação

Porém, o estranho triunfo de “The Boys in the Band” está nas suas contradições. E o triunfo é estranho porque ao mesmo tempo que é a melhor coisa do filme, é também o seu grande problema. O texto de Mart Crowley de 1968 (que escreveu o roteiro para todas as versões da história, no teatro e no cinema) permanece praticamente intocado. Foi uma história escrita antes dos direitos civis para LGBTs, antes do casamento igualitário, das paradas, do reconhecimento da existência da comunidade por líderes mundiais. Essas coisas não são citadas diretamente em nenhum momento:  são as dores e as feridas causadas por viver num mundo assim que são expostas em cada discussão e lembrança dos personagens. E por um lado, isso faz o filme parecer datado demais em alguns momentos… mas por outro, muito dele ressoa melancolicamente com o mundo em que vivemos. 

Se determinadas palavras já não fazem mais sentido e algumas discussões quase nos fazem querer gritar para tela (“Isso se chama relacionamento aberto gente!”, é o que vem a cabeça numa determinada cena), a atmosfera geral entre os amigos, as mágoas que eles carregam e principalmente as verdades ditas perto do final ainda são mais próximas da comunidade gay do que deveriam. 

Homens que viveram um casamento de mentira, o preconceito com gays “discretos” e “afeminados” dentro da própria comunidade, o conflito com uma religião da qual a pessoa não consegue se desprender mas sabe que é vista por ela como uma aberração, o racismo velado dentro do meio, a perturbadora falta de união (“Se só conseguíssemos não nos odiar tanto”, diz Michael num momento catártico)… o que realmente mudou, o quanto realmente evoluímos desde então? 

The Boys in the Band: Reflexões sobre o presente em uma janela para o passado
imagem divulgação

A atmosfera contraditória de “The Boys in the Band” é na verdade um dedo na ferida: muito mudou e melhorou para os gays sim desde os anos 60, mas ainda há um longo caminho a se percorrer e muito que continua igual, dentro e fora da comunidade. Tal qual esses personagens, muitos ainda lutam internamente para poderem viver livres e sem medo de olhares de julgamento, de agir de determinada maneira, falar de determinada forma, seguir um estilo de vida, sem temer o que virá no futuro ou de qualquer julgamento divino que seja. 

É uma luta constante, uma corrida rumo ao desconhecido, como a do personagem de Jim Parsons no final. Não é a toa que essa cena de Michael correndo foi criada para essa nova versão da história: ainda há conflitos, medos e inseguranças, mas nos dias de hoje, pode-se correr rumo a esperança de um futuro menos desafiador para amar a si mesmo.

Marcelo Silva, colunista de Cultura

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