O Jornal Analítico é um projeto profissional independente que busca através das notícias, opiniões e análises criar um senso crítico que amplie a capacidade de entendimento social do leitor. Sempre com a seriedade que o jornalismo profissional necessita. Amplie-se.

-Publicidade-

Tenet: o filme que foi deixado para trás

0

Tenet, o filme que foi deixado para trás – Após insistir num lançamento em 2020, Christopher Nolan vê seu filme sendo projetado para salas de cinema vazias

Por Marcelo Silva

Desde março, quando o novo coronavírus começou a se espalhar descontroladamente pelo mundo, Hollywood percebeu que 2020 não seria um ano comum. A Universal tomou a dianteira, adiando o novo 007 e o próximo “Velozes e Furiosos”. Depois vieram adiamentos de “Um Lugar Silencioso 2”, “Mulan”, “Mulher-Maravilha 1984” e todos os filmes da Marvel.

E pouco a pouco, tal qual aconteceu com tudo no mundo esse ano, as coisas saíram do controle, calendários dos próximos dois anos precisaram ser revistos e diversos filmes tiveram seus lançamentos nos cinemas cancelados.

Mas um diretor se manteve inabalável sobre lançar o seu novo filme em 2020: Christopher Nolan. Marcado para 17 de julho desse ano, “Tenet” foi adiado três vezes e pelo seu orçamento absurdo (US$ 200 milhões, a produção original mais cara de Nolan até hoje), parecia óbvio que a Warner jogaria o filme para 2021, garantindo assim um retorno financeiro.

PUBLICIDADE

Porém, algumas fofocas de bastidores dizem que o cineasta pressionou o estúdio para insistir num lançamento assim que possível esse ano, para que “Tenet” fosse o marco de um retorno triunfal do público para os cinemas.

Pois bem, em 26 de agosto o novo projeto de um dos diretores mais celebrados dos últimos anos chegou aos cinemas de 70 países, dia 3 de setembro foi a vez dos EUA e no final de outubro, do Brasil. O resultado foi exatamente o que a Warner (e basicamente qualquer pessoa com bom senso) esperava: com parte do mundo mantendo os cinemas fechados e os que estavam abertos operando com capacidade limitada, a bilheteria de “Tenet” até o momento acumula US$ 356 milhões mundialmente, o que para um filme de 200 milhões, é um resultado medíocre.

Este que vos escreve foi um dos que se aventurou numa sala de cinema para assistir ao filme e é exatamente por isso que esse texto é muito mais sobre o seu lançamento do que uma opinião sobre ele. Como boa parte do longa foi filmado com câmeras IMAX, fui na sala com a tela colossal no shopping Bourbon aqui em São Paulo e o que vi foi o cinema num melancólico limbo.

Com todos os blockbusters empurrados para 2021, a programação ficou resumida a “Tenet”, alguns documentários, filmes independentes, europeus e produções que já chegaram no streaming ou VOD há alguns meses. Por isso, não há exatamente disputa por lugares e fora o uso de máscara, as medidas de segurança contra o COVID mal precisam ser usadas, já que os corredores e bilheterias estão vazios e dá pra contar nos dedos o público das salas.

O sentimento de estranheza piorou quando vi o shopping lotado como nos tempos “normais”. Era quase como se o cinema fosse um portal para outro universo. A verdade é que além da insegurança (que não é o caso de quem estava lotando a praça de alimentação, claramente), o público basicamente entendeu que tudo foi adiado para o ano que vem, então o que deu para perceber é que ninguém nem se dá ao trabalho de chegar perto para ver se talvez tenha algo em cartaz.

Tenet
Imagem Divulgação

Agora, sobre o filme, fazendo esse texto agora é engraçado pensar que Nolan realmente acreditava que sua história sobre manipulação temporal, conspirações e missões acontecendo em diferentes linhas do tempo criando diferentes realidades realmente fosse capaz de chamar as pessoas de volta para os cinemas.

Com um roteiro quase que desnecessariamente complexo, “Tenet” é além de tudo um filme extremamente frio. Nolan parece mais preocupado em nos fazer montar quebra cabeças e preencher quadros brancos mentais para dar sentido a todas as voltas da trama do que em criar uma história e personagens realmente envolventes.

Existem dramas pessoais ali, mas não temos tempo de absorvê-los, John David Washington e Robert Pattinson fazem o que podem para dar algum carisma para as figuras sem alma que Nolan escreveu para eles, mas no final é difícil se importar em como os dois vão terminar.

Inclusive há uma grande revelação no final do longa que faz o protagonista chorar, mas do lado de cá vemos isso com indiferença, já que passamos tanto tempo em imbróglios temporais que não vimos quaisquer traços de personalidades e conexões reais entre aqueles personagens para que essa revelação nos impactasse. Pra efeito de comparação, Doctor Who fez algo muito parecido há alguns anos (e o roteiro ali costuma ser bem cafona) e foi muito mais bem-sucedido na parte emocional e no impacto que a revelação causa em quem está assistindo.

É um filme que faz parte de outro mundo, um que as pessoas efetivamente se engajariam em ir ao cinema várias vezes pra depois sair e passar horas no bar ou na praça de alimentação do shopping discutindo os conceitos apresentados, enchendo fóruns da internet com teorias sobre o significado de cada frame do filme.

Esses problemas citados ainda estariam lá, mas acabariam sendo amenizados nesse cenário alternativo. Agora porém, a última coisa que o público precisava era de um filme tão pragmático, que parece se orgulhar tanto de ser complicado como é.

O chamariz para assisti-lo na tela grande fica só por conta do som e imagem, que como em todo filme dirigido por Nolan, são impressionantes.

A trilha de Ludwig Göransson é impecável e as sequências de ação são um verdadeiro espetáculo em IMAX, em especial uma perseguição contra um carro “invertido” e o gigantesco clímax, que foram os únicos momentos em que eu realmente prendi o ar durante a sessão. A tão comentada explosão do avião no hangar também é impressionante, mas já virou tradição. Todo filme do Christopher Nolan já nos preparamos pra descobrir o que ele comprou por milhões pra explodir dessa vez.

São coisas que fazem valer a telona, mas, voltando para a mesma tecla… num mundo normal. Assumo a imprudência de ter ido no cinema nesse momento, independente dos cuidados tomados e de ter me atentado a como o cinema estaria, se a sala teria muita gente, coisa do tipo.

PUBLICIDADE

Em 2020, nada vale a tela grande e digo isso como alguém que ainda acha a experiência de uma sala de cinema indispensável para a maioria dos filmes. Por isso mesmo a decisão de adiar as grandes produções para 2021 foi difícil, mas necessária, porque como a Warner e Nolan estão aprendendo a duras penas, insistir num lançamento nesse cenário traria resultados muito piores.

“Tenet” é mesmo um filme feito para se ver no cinema, na maior tela possível. Por isso mesmo é uma pena que seu diretor tenha sido tão egoísta e egocêntrico a ponto de jurar que criou algo tão incrível e indispensável que insistiu em lançá-lo num ano em que boa parte do mundo sequer teve a opção de assisti-lo e se teve, precisou pensar mil vezes antes de conferir.

Essa decisão, aliada ao fato de que o filme passa longe de ser tão impactante a ponto de sustentar seu hype até 2021, fará “Tenet” virar uma ilusão coletiva e uma produção que daqui 10 anos, muita gente sequer saberá que um dia existiu.

E não é irônico que um filme que fale tanto sobre o tempo esteja fadado a ser esquecido por ele?

Marcelo Silva, colunista de Cultura

PUBLICIDADE

você pode gostar também

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

20 − cinco =