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Mulan: no fim, só mais um remake live-action da Disney…

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Mulan, o remake live-action da animação de 1998 chega ao Disney+ e é exatamente o que se espera desse tipo de filme, infelizmente.

Por Marcelo Silva

Desde o primeiro trailer, o remake live-action de Mulan era provavelmente o primeiro dessa onda da Disney que tinha conseguido me deixar empolgado.

Com a promessa de se basear mais na lenda chinesa e menos na animação, o filme realmente parecia disposto a fazer algo completamente novo e as imagens divulgadas antecipavam um épico de guerra grandioso (dentro dos limites para crianças do estúdio, claro), digno de ser visto na maior tela possível.

Faltando apenas duas semanas para a estreia, o COVID-19 parou o mundo de vez e o filme foi adiado. Nos meses seguintes, rolaram mais dois adiamentos antes da Disney desistir de vez e anunciar que lançaria o filme direto no streaming, numa medida inédita e arriscada.

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A essa altura, minha empolgação com ele – assim como com todos os filmes desse ano pra falar a verdade – já havia se diluído e restou esperar o Disney+ chegar no Brasil para conferir a produção (claro, existiam outros meios) mas como eu disse, já não estava animado o suficiente para correr atrás assim).

No último dia 4,Mulan” enfim chegou à plataforma de streaming e mesmo não estando tão empolgado quanto estava no começo do ano, acho que não é exagero dizer que essa é a minha maior decepção no cinema em 2020.

Mulan, Disney+, live-action
Mulan, live-action disponível na plataforma Disney+

Prometeram recontar a lenda chinesa sob uma nova ótica, mas o que entregaram foi um filme que não sabe se quer agradar os fãs da animação ou seguir seu próprio caminho, trazendo referências vazias na mesma medida que apresenta conceitos totalmente novos.

Também prometeram (e isso até o trailer indicava) um épico com grandes cenas de guerra nos moldes de “Herói” (o belíssimo filme de Zhang Yimou com Jet Li) e “O Tigre e o Dragão”.

Sinceramente até fazia sentido “Mulan” ter essas inspirações, são megaproduções chinesas que chamaram atenção no Ocidente, mas o que entregaram foi um filme que só evoca o épico no seu visual, mas preferiu se inspirar mais no que a Disney já vinha fazendo em outros remakes: uma produção fria, cínica e sem alma.

Na verdade, essa acaba sendo até um pouco pior nesse aspecto, porque a diretora Niki Caro (que inclusive é neozelandesa… já que aparentemente não existem cineastas chinesas nesse mundo) dispensou as músicas da animação em prol de mais “realismo” para a história. E não é que elas fossem necessárias- não eram- mas os outros remakes que saíram até então ainda se beneficiavam disso para nos gerar alguma resposta emocional.

Aqui não há nada. Contando a história de forma burocrática e corrida, Caro não permite nenhuma conexão emocional com os personagens, não aprofunda a relação entre Mulan e seu pai (algo essencial), não cria momentos que substituam o impacto emocional e desenvolvimento da história que as canções traziam. Com isso, as coisas simplesmente acontecem, o filme vai passando diante dos nossos olhos sem que nada nos afete. Não conseguimos torcer, chorar, rir ou nos empolgar com nada que Mulan faz porque não conhecemos aquela garota.

Foto divulgação/ Mulan, live-action disponível no Disney+

O buraco fica ainda mais fundo quando pensamos que nessa nova versão, somos apresentados ao conceito do “chi”, algo que de fato faz parte da cultura tradicional chinesa, ainda que de forma mais complexa e delicada. O filme pega somente a parte que George Lucas se inspirou para criar a Força em Star Wars e dá isso a Mulan. Ou seja, além de tudo a protagonista tem um superpoder escondido. Qual o grande desafio dela já que se estiver encurralada em qualquer situação, é só usar o “chi”? O que ela teria para provar? Por que devemos nos importar com Mulan nesse filme?

E como a cartilha de remakes live action da Disney deve ser seguida à risca, também há as novas mensagens de empoderamento mal colocadas que beiram ao cinismo. A essa altura, é quase como se o estúdio estivesse debochando de quem levanta bandeiras (especialmente do feminismo, que tem sido o foco principal da maioria dos remakes), procurando formas de fazer essas “atualizações” parecerem menos orgânicas possíveis.

A animação original é adorada até hoje pela forma que quebrou as normas de filmes de princesa da Disney na época. Sim, hoje há toda uma discussão sobre os estereótipos femininos e masculinos, algumas piadas sexistas e como o filme reforça normas de gênero quando a lenda no qual foi inspirado vai no caminho contrário, mas no geral, Mulan elevou o panteão de princesas da Disney para outro nível muito antes de “Frozen” levar todo esse crédito.

Ou seja, não havia muito o que atualizar na versão de 2020, fora repensar esses detalhes citados. Ao invés disso, o roteiro do remake prefere complicar os conceitos que ele mesmo apresenta, criando novas problemáticas sem corrigir as que já existiam.

Mulan: no fim, só mais um remake live-action da Disney…
Foto divulgação

A bruxa interpretada por Gong Li por exemplo, está ali apenas para criar um momento de sororidade de caráter duvidoso no clímax do filme e para reforçar o discurso que o roteiro cria – claramente sem perceber – de que apenas mulheres com o poder do “chi” como ela e Mulan podem conquistar grandes coisas.

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O fato da protagonista criar soluções que nunca se baseiam na força bruta, mas na inteligência e criatividade e momentos brilhantes como ela usando seu leque (um objeto tradicionalmente feminino na época) para desarmar o vilão na animação já não eram bons o suficiente? Não era só usar o efeito que esses momentos têm para criar novos inspirados nesses para o remake?

Veja bem, não sou da turma que acha que esses filmes deveriam refazer as animações quadro a quadro. Muito pelo contrário, um dos motivos do meu completo desgosto pela nova versão de “O Rei Leão” por exemplo é exatamente como ele recria inutilmente a animação com uma capa realista, cinza e sem graça.

Porém a ideia de recontar histórias não é piorá-las e sim reinventá-las de uma maneira que torne-as mais interessantes e relevantes, para terem uma razão de existir, principalmente se são de filmes relativamente recentes (20 anos, para o cinema, não é lá muita coisa). E se não há nada realmente significativo a se atualizar na história, talvez é bom repensar se ela realmente deve ser recontada.

A única coisa que faz valer a conferida em “Mulan”, no fim das contas, é seu visual (que aliás me faz pensar que talvez alguns defeitos ficariam mais disfarçados com o impacto das imagens na tela grande). A fotografia, como dito anteriormente, evoca as grandes produções chinesas de artes marciais (os wuxia films) e as sequências de ação, independente do uso do “chi”, são bem impressionantes. Além disso, a fantástica sequência da avalanche da animação é recriada aqui e apesar de ser um fanservice gratuito e totalmente deslocado, não deixa de ser impressionante.

Eu poderia terminar dizendo que o melhor seria a Disney desistir desses remakes live action mas enquanto estou escrevendo esse texto, as sequências de “Aladdin” e “O Rei Leão” estão em pré-produção e “A Pequena Sereia” se prepara para voltar as filmagens.

São produções que dão rios de dinheiro e no momento é somente isso que importa para um estúdio que fez um passado brilhante cheio de filmes feitos por pessoas apaixonadas por boas histórias (e ainda assim ganhou muito dinheiro com isso).

No fim, a única pessoa que tirou algo de positivo desse novo “Mulan” foi Christina Aguilera, que regravou “Reflection” (o primeiro single de sua carreira) e mostrou que ela segue firme como uma das vozes mais poderosas do pop, gerando de quebra o único lapso de emoção que conseguimos ter com esse filme (mas precisa esperar os créditos para conferir). De resto… a animação também está disponível no Disney+ e sempre vai valer a pena conferir.

Marcelo Silva, colunista de Cultura

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