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Chadwick Boseman. Ícones, cinema e história

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Uma reflexão sobre a marca que Chadwick Boseman, que faleceu ontem aos 43 anos, deixou na história do cinema. 

Por Marcelo Silva

Antes de mais nada, acho válido dizer que eu tinha uma pauta pronta para hoje, mas ela fica para depois porque perdeu todo o sentido. Talvez esse texto possa parecer bagunçado, talvez não, mas eu só senti que precisava fazê-lo, com tudo que tem passado na minha cabeça desde que li as notícias e homenagens de colegas de trabalhos feitas a Boseman. Com isso esclarecido, vamos lá: 

Com a indústria cinematográfica se preparando para entrar numa nova e incerta fase de sua história quando a pandemia do novo coronavírus passar, acredito que seja seguro dizer que Pantera Negra foi responsável pelo último grande movimento cultural causado pelo cinema que o mundo testemunhou. 

Quando a Marvel investiu no seu primeiro grande blockbuster protagonizado por um herói negro, é claro que ela esperava um sucesso em algum nível. Mas nem o mais otimista dos executivos contava com o fenômeno que se desencadeou. Mais de US$ 1 bilhão em bilheteria, artistas, professores e até padres (!!) comprando salas de cinema inteiras para comunidades negras nos EUA assistirem ao filme, “Wakanda forever!” sendo exclamado nos quatro cantos do globo e um personagem que até então era parte do segundo escalão da Marvel, sendo alçado ao olimpo da editora, junto de nomes como Homem-Aranha, Capitão América e Homem de Ferro.

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Chadwick Boseman ícone historia e cinema
imagem reprodução – Chadwick como Pantera Negra

Isso porque por mais que a estrutura não fosse muito diferente dos outros filmes de super herói, na sua essência Pantera Negra era único. O visual afro futurista, o conceito de um país africano que nunca foi colonizado e como isso impactava toda a realidade ao redor dos personagens, o filme ia além de uma simples aventura e das sequências de ação, ele tinha algo a dizer, uma mensagem para espalhar. Força, poder, ancestralidade, orgulho: tudo isso pelos olhares de um elenco quase que inteiramente negro. 

No centro de tudo isso, abraçando o manto do protagonista, estava Chadwick Boseman. Um nome em ascensão em Hollywood, Boseman aceitou o papel de T’Challa em 2014, quando estava promovendo “Get On Up”, em que ele interpretava o padrinho do soul James Brown. Isso apenas um ano depois de seu primeiro grande papel no cinema, como Jackie Robinson, lenda do esporte que foi o primeiro jogador negro da Major League Baseball nos EUA. 

Em 2016, “Capitão América: Guerra Civil” foi lançado e então o ator começou uma maratona: no mesmo ano ele fez “Deuses do Egito” e “King: Uma História de Vingança” e em 2017 veio “Marshall”, em que ele assumiu o papel de Thurgood Marshall, o primeiro juiz negro da Suprema Corte dos Estados Unidos. 

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imagem reprodução – Chadwick como Thurgood Marshall

O ano seguinte trouxe o fenômeno de “Pantera Negra” e “Vingadores: Guerra Infinita” e em 2019 Boseman seguiu a sua catártica aparição em “Vingadores: Ultimato” com o papel principal no thriller policial “Crime Sem Saída”. Já esse ano, o ator nos deu Norman Earl Holloway, o líder de um esquadrão de soldados negros na Guerra do Vietnã em “Destacamento Blood”, filme de Spike Lee lançado em junho desse ano na Netflix e Levee em “Ma Rainey’s Black Bottom”, filme protagonizado por ele e Viola Davis ainda sem data de lançamento.

Se você não parou para contar enquanto lia, foram DEZ filmes num período de cinco anos. E todos com papéis relevantes, a maioria como protagonista, o que inevitavelmente exigiu também muitas entrevistas, tapetes vermelhos, premiações, talk shows e tudo o que a profissão manda. 

E então de repente, no auge absoluto de sua carreira e aos 43 anos, Chadwick Boseman se foi. Ontem as redes sociais do ator noticiaram seu falecimento devido a um câncer no cólon, que ele enfrentava desde… 2016. Enquanto trabalhava em filme após filme sem descanso, em papéis gigantes e inspiradores, o ator travava uma luta silenciosa e desafiadora na vida real. 

James Brown, Jackie Robinson, Thurgood Marshall, o líder de um esquadrão, um detetive comandando uma investigação, o rei de Wakanda. Uma das coisas que marcou a carreira de Boseman foi essa tendência a interpretar ícones, líderes a serem seguidos e pessoas que fizeram história. Agora tudo fica bem claro: ele tinha um talento natural para isso porque sempre esteve destinado a ser essas mesmas coisas.

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imagem reprodução – Chadwick como James Brown

Os próximos anos mostrarão quantos novos atores surgirão inspirados pela figura de um super-herói parecido com eles e quantos personagens dos quadrinhos ganharão espaço nas telonas graças a T’Challa. Já o impacto de Boseman no presente é claro desde a época que Pantera Negra foi lançado. O vídeo viral das crianças de uma escola de Atlanta comemorando quando descobriram que iriam ver o filme, a saudação de Wakanda que tomou conta do mundo e um relato emocionante do próprio ator sobre duas crianças com câncer terminal que contaram a ele que estavam tentando aguentar o suficiente para que pudessem assisti-lo nos cinemas são só os mais famosos exemplos. 

Chadwick Boseman se despediu desse mundo muito antes do que esperávamos e acredito que muito antes do que ele queria. O sentimento é de que ainda havia muito para se fazer e mostrar, mas a vida tem essas viradas estranhas, inesperadas e implacáveis. Isso porém, não muda o fato de que mesmo com uma carreira encurtada, o ator se tornou um ícone tão poderoso quanto os personagens que interpretou para toda uma geração se inspirar.

chadwick boseman

Vá em paz Chadwick. Que Bast e Sekhmet o guie para que você possa correr para sempre pelos campos verdejantes, tal qual na cultura do seu mais famoso personagem. E que belíssimo exemplo você deu do que é ser, nas palavras de Nina Simone – repetidas por você quando venceu o SAG de Melhor Elenco por Pantera Negra:

“Jovem, talentoso e negro”

Chadwick Boseman

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Marcelo Silva, colunista de Cultura

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