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As novas regras do Oscar e o caminho para a diversidade em Hollywood

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As novas regras do Oscar foram anunciadas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. As mudanças focam em reforçar a diversidade entre os indicados a Melhor Filme

Por Marcelo Silva

Essa semana, cumprindo a promessa que havia feito há alguns meses, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou o que eles chamaram de “nova fase” na iniciativa por inclusão e diversidade do Oscar. São regras com um peso gigante para uma premiação que por tantos anos ofuscou profissionais e histórias que representam minorias. 

A partir de 2022 (e obrigatoriamente em 2024), toda produção que quiser competir como Melhor Filme precisará atingir dois desses quatro critérios: 

1. Sobre elenco e narrativas

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– Pelo menos um dos atores principais ou coadjuvantes significativos precisarão pertencer a alguma raça ou etnia sub-representada

– 30% do elenco deverá fazer parte de, pelo menos, dois grupos sub-representados (raças/etnias, mulheres, LGBTQ+, pessoas com deficiência)

– A história principal ou tema do filme deverá ser sobre os mesmos grupos sub-representados acima

2. Sobre equipe da produção

– Pelo menos dois chefes de departamento e líderes criativos da produção precisam fazer parte de, pelo menos, dois grupos sub-representados

– Uma dessas posições deve ter uma pessoa de raça/etnia sub-representada

– 30% da equipe deverá fazer parte de um grupo sub-representado

3. Oportunidades de emprego

– Os estúdios e distribuidoras dos filmes deverão ter programas de estágio e aprendiz para grupos sub-representados

– Estúdios e distribuidoras deverão oferecer treinamento e empregos para vagas na equipe das produções para grupos sub-representados 

4. Desenvolvimento da audiência

– As equipes de marketing, publicidade e distribuição dos filmes deverão ter executivos que façam parte de algum grupo sub-representado

As novas regras do Oscar
imagem reprodução – as novas regras do Oscar

Foi questão de segundos após a divulgação das novas regras para o público se dividir. Muitos apoiaram as medidas de forma irrestrita, enquanto alguns começaram questionamentos já conhecidos: “As pessoas não deveriam ter oportunidades por mérito próprio?”; “Agora vão premiar filmes só pela lacração?”; “O Oscar não vai mais se importar se os filmes são realmente bons”. Sempre que mudanças assim são anunciadas, o caminho é o mesmo. 

Mas o fato é que nenhuma mudança a favor da diversidade racial, de gênero ou sexualidade que aconteceu em toda a nossa história veio sem regras ou leis tendo que ser impostas. É claro que as coisas poderiam ser diferentes, mas pessoas que fazem os questionamentos infundados acima sempre se colocaram no caminho e atrasaram o progresso. O preconceito velado, o temor de ver sua zona de conforto ameaçada e de ter que dividir o espaço dominante com pessoas diferentes de si impediram muitas pessoas de ter seus direitos e seu reconhecimento quando mereciam, fazendo essas medidas sempre se fazerem necessárias. 

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O discurso de Viola Davis no Emmy de 2015, quando se tornou a primeira (e até então única) atriz negra a vencer o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática, foi certeiro, histórico e chama atenção até hoje: “você não pode vencer prêmios por papéis que simplesmente não existem”. No ano seguinte, quando nenhuma pessoa negra foi indicada nas categorias de atuação do Oscar, Chris Rock também falou sobre como tudo que esses artistas precisam são oportunidades: “Leonardo DiCaprio ganha papéis incríveis todo ano. Artistas brancos têm oportunidades sempre, mas e os negros?”. 

E isso vale para todas as outras raças e etnias não-brancas. Por que Scarlett Johansson e Emma Stone foram escaladas para personagens asiáticas em “Ghost in the Shell” e “Aloha”? E o que explica Christian Bale e Gerard Butler interpretando egípcios em “Êxodo: Deuses e Reis” e “Deuses do Egito”? Fica pior ainda quando pensamos em Angelina Jolie em “Procurado”, interpretando uma personagem que na HQ da qual o filme foi adaptado não só é negra como inspirada especificamente em Halle Berry. Não existem artistas asiáticos ou com descendência do Oriente Médio com mérito o suficiente em Hollywood? E o que dizer do caso de Berry então? 

Vale mencionar algo importante: nenhum dos indicados a Melhor Filme desse ano por exemplo, seriam desqualificados segundo as novas regras. Por isso, o cenário apocalíptico pintado por pessoas de mente pequena de que homens brancos héteros desaparecerão do Oscar por causa dessas novas medidas é no mínimo ridículo. 

E sobre o Oscar não se importar com os filmes serem realmente bons… para citar um exemplo recente, em 2019 o Oscar esnobou “Se a Rua Beale Falasse” – espetacular drama dirigido por Barry Jenkins, com elenco majoritariamente negro e uma história que lidava com questões raciais – na categoria principal, preferindo dar atenção a “maravilhas” como “Bohemian Rhapsody” (um dos filmes mais mal avaliados pela crítica a ser indicado a Melhor Filme) e “Green Book” (um dos vencedores da categoria principal mais medíocres que o Oscar já teve). Então digamos que esse problema já é real há algum tempo, mas não pelas razões que as pessoas incomodadas com as novas regras alegam. 

Essas medidas, aliadas a outras anunciadas no início do ano – manter dez indicados fixos na categoria principal e expandir a janela de exibição dos filmes para membros da Academia – vem num esforço de mudar a imagem datada, elitizada e sim, preconceituosa que o Oscar cultivou ao longo das décadas. Houve breves respiros como “Moonlight” em 2017 e “Parasita” esse ano e a intenção é fazer com que eles não sejam apenas exceções. 

Entrega do Oscar para o filme Parasita

O caminho é longo, talvez seja interminável, mas cada novo passo merece ser comemorado. E se a reação à vitória desses dois filmes nas suas respectivas cerimônias significar algo, celebrar histórias diversas sobre pessoas diversas é tudo que o Oscar precisa. E o mundo também.

Marcelo Silva, colunista de Cultura

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